Política é Violência

Por Max Weber

O estado

Todo estado é baseado na força”, disse Trotsky em Brest-Litovsk. Isto é, de fato, verdade. Se não tivesse existido nenhuma instituição social que conhecesse o uso da violência, então o conceito de “estado” não existiria, e surgiria uma condição que poderia ser designada como “anarquia”, no sentido específico desta palavra. É claro, a força certamente não é o meio normal ou o único meio do estado – ninguém quer dizer isso –, contudo, a força é um meio particular do estado.

Hoje, a relação entre estado e violência é especialmente íntima. No passado, as mais variadas instituições – começando com a Sippe [clã, tribo, família estendida] – conheciam o uso da força física como bastante normal. Hoje, entretanto, dizemos que um estado é uma comunidade humana que, com sucesso, reivindica o monopólio do uso legitimado da força física dentro de um dado território.

Perceba que “território” é uma das características do estado. Especificamente, nos dias atuais, o direito de usar força física é atribuído a outras instituições ou a indivíduos apenas na medida em que o estado permite. O estado é considerado a única fonte do “direito” de usar violência.

A política como poder

Isto essencialmente corresponde ao uso comum. Quando se diz que uma questão é uma questão “política”, quando se diz que um gabinete de um ministério ou um funcionário público é um funcionário “político”, ou quando se diz que uma decisão é “politicamente” determinada, o que sempre se quer dizer é que os interesses na distribuição, na manutenção ou na transferência de poder são decisivos para responder às questões e determinar a decisão ou a esfera de atividade do funcionário público. Quem é ativo na política batalha por poder, seja como um meio para servir outros desejos, ideais ou egoístas, ou pelo “poder por si próprio”, i.e., para desfrutar a sensação de prestígio que o poder gera.

Como as instituições políticas historicamente precedentes, o estado é uma relação de homens dominando homens, uma relação apoiada pelos meios de legitimar (isto é, considerar como legítima) a violência. Se o estado existe, o dominado deve obedecer a autoridade reivindicada pelos poderes constituídos.

Os políticos profissionais

Hoje, não assumimos uma posição sobre essa questão. Eu declaro apenas o aspecto puramente conceitual para nossa consideração: o estado moderno é uma associação compulsória, que organiza a dominação. Ele teve sucesso em buscar o monopólio do uso legítimo de força física como um meio de dominação dentro de um território.

Para esse fim, o estado tem combinado os meios materiais de organização nas mãos de seus líderes, e tem expropriado todos os funcionários autônomos de propriedades que anteriormente controlavam esses meios por seu próprio direito. O estado tem assumido suas posições e agora está no comando.

Durante esse processo de expropriação política, que tem ocorrido com sucesso variado em todos os países da Terra, os “políticos profissionais” em outro sentido emergiram. Eles surgiram primeiro ao serviço de um príncipe. Eles eram homens que, ao contrário do líder carismático, não desejavam eles próprios serem lordes, mas que entraram ao serviço de lordes políticos. Na batalha de expropriação, eles se colocaram à disposição dos príncipes e por administrar as políticas dos príncipes eles ganharam, por um lado, um meio de vida e, por outro lado, um objetivo ideal de vida.

Novamente, é apenas no Ocidente que encontramos esse tipo de político profissional ao serviço dos poderes além dos príncipes. No passado, eles eram o instrumento de poder mais importante do príncipe e seu instrumento de expropriação política.

A política como violência

O meio decisivo para a política é a violência. Quem quer que queira se engajar na política, e especialmente na política como vocação, tem que perceber esses paradoxos éticos. Ele deve saber que é responsável pelo que ele próprio pode se tornar sob o impacto desses paradoxos. Eu repito, ele deixa se adentrar nas forças diabólicas que espreitam violência por todo lugar. A grande virtuosi do amor acósmico da humanidade e bondade, seja decorrente de Nazaré ou Assis ou dos castelos da realeza indiana, não opera sob os meios políticos de violência. Seu reinado não foi “deste mundo”, e ainda assim eles trabalharam e ainda trabalham neste mundo. As figuras de Platão Karataev e os santos de Dostoiévski ainda permanecem como suas reconstruções mais adequadas. Quem busca a salvação da alma, de sua própria e a de outras, não deve buscá-la através da avenida da política, pois as tarefas bem distintas da política podem apenas serem resolvidas pela violência.

Os gênios ou demônios da política vivem em uma tensão interna com o deus do amor, como também com o deus cristão como expressado pela Igreja. Esta tensão pode em qualquer momento gerar um conflito inconciliável. Os homens sabiam disso mesmo nos tempos da regra cristã. De tempos em tempos a interdição papal foi imposta sob Florença e naquele tempo ela significava um poder muito mais robusto para os homens e a salvação de suas almas que (falando como Fichte) a “aprovação legal” do julgamento ético Kantiano. Os burgueses, entretanto, lutaram contra o estado-igreja. E é por referência a tais situações que Maquiavel em uma linda passagem, se não estiver enganado, do livro History of Florence, tem um de seus heróis louvando aqueles cidadãos que acreditam nas grandezas de sua cidade nativa mais que na salvação de suas almas. Se alguém disser “o futuro do socialismo” ou “paz internacional”, ao invés de cidade natal ou “pátria mãe” (que atualmente pode ser dúbio para alguns), então você enfrenta o problema na sua forma atual. Tudo que se luta através da ação política operando através de meios violentos e seguindo uma ética de responsabilidade coloca em perigo a “salvação da alma”.

Traduzido por Lacombi Lauss

8 comentários em “Política é Violência

    1. Vi sim. Minha namorada me mostrou o vídeo ontem. Não conhecia esse rapaz e se ela não tivesse dito nada a respeito dessa figura, eu certamente apostaria que se tratava de um eurasiano inculto querendo se aventurar no YouTube. Efetivamente, o argumento é de natureza eurasiana e quem conhece a QTP sabe muito bem do que estou dizendo. No entanto, os eurasianos costumam ser cultos e não dizem coisas como “os saxônicos” e tampouco iriam citar como referência em um mesmo argumento Carl Jung e Eric Voeglin. O primeiro é talvez um dos maiores gnósticos do século XX e todo seu pensamento em baseado em puro gnosticismo; o segundo foi o cara que refutou o gnosticismo nas ciências sociais. No mais, o que dizer? Eu ouvi um jovem citando frases, pessoas e histórias aleatoriamente para justificar algo totalmente descontextualizado, algo típico de um militante político: uma figura muito pouco intelectualizada e que gosta de se passar por uma. O único fator de coesão naquele roteiro que ele estava lendo era um conjunto de argumentos, fundados em uma tentativa frustada de organizar uma metapolítica exotérica e metafísica, que podem facilmente ser usados para justificar literalmente qualquer tipo de tirania governamental. Na minha opinião, trata-se de algo essencialmente oposto a toda tradição conservadora, liberal e libertária que o Ocidente construiu ao longo de mais de dois milênios. Por isso mesmo, se você se identificou com algo naquele discurso, eu recomendo beber em fontes de valor antropológico, que citem corretamente os autores e cujos argumentos tem início meio e fim. Ou seja, dê uma olhada em Evola, Spengler ou até mesmo Dugin. E se quer uma resposta direta a tais ideias, basta procurar por autores conservadores ingleses e americanos que se opõem à QTP – Barry Goldwater e Thomas Sowell, por exemplo, dão bons contrapontos. Até mesmo Olavo de Carvalho pode lhe dar boas referências a estas questões de mitologia e ciência política, pois tem um excelente debate em escrito com Dugin.

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    1. Olá, Bruno. Sinceramente, eu nunca li críticas sérias à praxeologia utilizando-se de neurociência. Adianto, porém, que se trata de algo bastante exótico e as pessoas que as proferem sem dúvidas têm certas dificuldades em domínios epistemológicos. Não seria um absurdo dizer sobre criticas da Química Nuclear à Geometria Euclidiana? Pois bem, assim como esta última, a praxeologia é uma disciplina dedutiva, que parte de um pressuposto inatacável e deduz dele, por pura lógica formal, suas conclusões. A aplicação da neurociência em ciências humanas pode nos lançar luzes sobre o porquê as pessoas escolhem determinados fins ou como as pessoas irão agir em determinadas situações sobre determinados estímulos. Já a praxeologia, por outro lado, lida com as implicações lógicas do fato de que as pessoas têm objetivos (fins) e agem para atingi-los. Confundir os dois domínios implica em cair no erro que Hayek chamou de “cientificismo”, que é uma extrapolação de domínios epistemológicos. Neste blog há um artigo chamado “O Erro do Empirismo nas Ciências Sociais”, onde eu explico o porquê o método das ciências sociais não é compatível com os estudos praxeológicos. Caso queira uma referência mais clássica, no capítulo 12 do livro “Teoria e História”, von Mises explica algo parecido com esse problema: a relação entre psicologia e o método austríaco.

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  1. Lacombi, quais são as chances de que você se torne mais ativo em redes sociais como o Youtube e Facebook? Acredito que (deixando de lado um pouco da produtividade da sua vida intelectual) só há benefícios envolvendo essa mudança de postura. Vejo em você uma liderança intelectual bem mais contundente do que outros nomes do libertarianismo brasileiro, mesmo que você não tenha essa ambição. Por favor, considere isso como um pedido de Natal: o Paleolibertarianismo é um grupo bem amigável em relação aos seus artigos e poderíamos ganhar muito tendo você como integrante da intelectualidade do grupo. De qualquer forma, Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

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    1. Olá, Daniel. Infelizmente eu não tenho muito tempo para o Facebook e não gostaria de tê-lo novamente para deixá-lo inativo na maior parte do tempo – isto sim iria trazer decepção às pessoas. Quanto ao YouTube, eu jamais me propus a estar por lá, pois não sou afeito à tradição oral. Prefiro me restringir à escrita. No entanto, caso algum canal decente queira me entrevistar ou precise de qualquer correção mais técnica em um determinado roteiro, eu posso me disponibilizar. Grande abraço e um feliz natal para você e sua família.

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  2. Lacombi,
    desculpe te incomodar novamente; nem imagino o quão ocupado está neste início de ano. O assunto em questão é a meu ver DECISIVO no FUTURO do PALEOLIBERTARIANISMO:
    https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1983121655112359&id=100002436301410&notif_t=feedback_reaction_generic&notif_id=1546710070414533&ref=m_notif
    Não sei quanto tempo isso demorará para chegar a você. Coloco-me a sua disposição para abordarmos o assunto em vídeo. Por favor, me contacte por e-mail ou pelo meu perfil pessoal no Facebook.
    Cordialmente,
    Daniel Nobre Falcão.

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