Entre Fatos e Valores: Uma Crítica ao Relativismo e ao Ceticismo Ético

Imagem: Ciência e Caridade (1897). Pablo Picasso.

Por Lacombi Lauss

I. Introdução 

Em debates acerca de valores é frequente vermos pessoas céticas, dizendo em tom de desdém frases como: “cada um tem seu ponto de vista”; “isso é algo pessoal”; ou “gosto não se discute.” Quem nunca ouviu, durante uma discussão moral, a seguinte indagação: “Isso é um fato ou um juízo de valor?”. O mais curioso é que, embora queiram eximir-se de dar justificações racionais para os valores, ou até mesmo de contestá-los explicitamente, as pessoas pretendem que seus valores sejam verdadeiros. No entanto, as noções de veracidade muitas vezes são apenas aceitas em âmbitos da experiência sensível.

A ideia de que “fatos” são constatações objetivas e “valores” são meras impressões subjetivas foi sendo sedimentada em nossa nossa sociedade por séculos de debates filosóficos e muitas vezes é adotada implicitamente sem muita crítica. Para que se possa chegar ao estado atual das coisas no que tange à dicotomia entre fato e valor devemos relembrar, brevemente, os debates teóricos que contribuíram para a ideia dessa separação. Antes de mais nada, porém, devemos notar a diferença entre uma distinção filosófica e um dualismo ingênuo: uma distinção filosófica pode, de fato, contribuir para uma melhor compreensão de determinado assunto ou ideia; contudo, no momento em que se passa a tratar uma distinção como uma questão prioritária para a abordagem de qualquer assunto, passa-se a criar um dualismo.

O caso recente mais famoso de radicalização dualista na epistemologia se deu com os chamados positivistas lógicos, que notadamente reforçaram a classificação entre sentenças analíticas e sintéticas, sendo todas as demais proposições desprovidas de senso de veracidade. As analíticas seriam as assertivas passíveis de serem a priori julgadas como verdadeiras ou falsas, apenas com uso da lógica formal e do significado pré-determinado das palavras, como em: “Todos os católicos são teístas”. Já a verificação de assertivas sintéticas dependeria de uma averiguação empírica, não sendo possível se extrair a verdade de forma imediata, como em: “A geometria do universo não é Euclidiana”. Tal diferenciação foi logo classificada pelos positivistas como ontológica e universalmente aplicável à realidade das coisas, independentemente da contextualização. Não dando margens para exceções, quando apareciam situações dúbias considerava-se então que a forma como a proposição foi feita tinha de ser alterada, ou que simplesmente ela estava posta ambiguamente, de forma a não ter sentido cognitivo.

Embora esta imagem científica positivista de mundo não esteja mais em voga dentro do mainstream filosófico moderno, ela nos será útil para analisar o caso particular da ética onde muitas ideias ainda têm fortes laços com este cenário passado. Com efeito, a partir das reflexões feitas pelos pragmatistas sobre as posições do positivismo lógico, obtém-se que o pensamento correspondente dentro do campo dos valores é de que podemos conceder ao cético que não temos conhecimento ético irredutível. Não haveria porque afirmar, desta forma, que a comiseração que um indivíduo sente frente a um necessitado ou a obrigação moral de auxílio a um familiar enfermo, por exemplo, seja uma espécie de conhecimento moral. Assim, não deveríamos tomar este sentimento como simples sentimento desvinculado de obrigações morais. Isso é explicado a seguir a partir de uma relação entre a ética e o debate epiestemológico.

II. Dos sintéticos e Analíticos aos Fatos e Valores

Um exemplo interessante dessa passagem de distinção inocente para uma dualismo metafísico é a forma como Kant enfrentou a classificação entre o sintético e o analítico. A contextualização da epistemologia kantiana dentro do debate filosófico de sua época pode ser compreendida analisando e contrapondo o pensamento epistemológico de dois de seus predecessores: René Descartes e David Hume.

O primeiro, cujo pensamento é comumente classificado dentro do racionalismo continental, junto com outros nomes como Baruch de Espinoza e Gottfried Leibniz, defendia que a origem última do conhecimento fundamenta-se na pura introspecção racional. De modo geral, por racionalismo, deve-se entender a teoria filosófica associada à ideia de que a origem do conhecimento, ao menos em grande medida, está na razão. Na sua forma extrema, o racionalismo defende que, em última instância, todo o conhecimento deriva ou depende de forma exclusiva de verdades obtidas apenas a partir da razão (a priori). Descartes defendeu explicitamente que através de argumentação a priori pode-se obter conhecimento acerca de algo que realmente existe, como foi ilustrado por ele em seu famoso argumento do “gênio maligno”, onde afirma ter demonstrado racionalmente a existência dele próprio como ser pensante.

Hume, por outro lado, é usualmente inserido no grupo dos empiristas britânicos na companhia de outros grandes pensadores britânicos como Francis Bacon, George Berkeley e John Locke. O termo empirismo é geralmente associado à ideia filosófica de que a origem do conhecimento está na experiência e assim, em última análise, que o conhecimento é determinado através dos sentidos. Levado em sua forma mais pura, o empirismo defende que, em última instância, todo o conhecimento deriva de, ou consiste em, verdades obtidas apenas a partir da experiência sensível (a posteriori). A classificação de Hume como um empirista pode ser justificada pela sua defesa de que a justificação do conhecimento está nas impressões. E estas, por sua vez, são o resultado da experiência – i.e., a  percepção, processo através do qual tomamos consciência do que é imediatamente percebidos pelos sentidos – em combinação com a introspecção, que é a percepção dos conteúdos da mente. Há em Hume uma diferenciação determinante entre impressões e ideias, diferenciação essa que forma o núcleo de seu pensamento epistemológico. Para nossa presente discussão, vale ressaltar apenas que para Hume são as impressões que determinam as ideias, sendo estas baseadas em imagens das impressões no pensamento. A fim de ilustrar esta tese, Hume argumenta que seria um absurdo pensar, por exemplo, que uma criança produz suas impressões a partir de suas ideias, pois suas noções de preto ou branco, amargo ou doce, surgiram precisamente porque lhe foram apresentados objetos que produziram nela as impressões correspondentes.

Foi esse ambiente intelectual de polaridade entre a priori e a posteriori, sintéticos e analíticos, que o jovem Kant encontrou no início de sua formação. Com efeito, antes de tomar conhecimento da filosofia de David Hume, Kant se declarava um racionalista, em grande parte em virtude da influência de Leibniz, seu conterrâneo alemão. Foi por influência da filosofia britânica que o jovem filósofo alemão passou a rever seu entendimento epistemológico. Mais precisamente, ao tentar aplicar a dualidade entre convenções (categorias do conhecimento a priori) e fatos empíricos às verdades matemáticas, Kant chegou à conclusão de que os princípios da matemática eram sintéticos, i.e, estavam além de mera tautologia, e também a priori, sendo independentes da experiência empírica. Certamente tal conclusão foi rechaçada pelos empiristas, porquanto classificavam verdades matemáticas como analíticas. Contudo, mesmo que não queiramos concordar com a (des)classificação apontada por Kant, devemos estar abertos para a possibilidade de que as verdades matemáticas não sejam nem somente assertivas analíticas, nem sentenças puramente sintéticas. Fundando o chamado criticismo, Kant foi capaz de superar, ainda que em partes, a dicotomia entre racionalismo e empirismo, se tornando exemplo de uma das mais vigorosas demonstrações de como dicotomias podem ser ineficazes e falhas para explicarmos os fenômenos da compreensão humana.

Assim como a Física se desenvolveu ao longo do século XX questionando certas dicotomias clássicas – com conceitos como onda e partícula na Mecânica Quântica e também a equivalência entre massa e energia na famosa equação E=mc² da relatividade especial de Einstein – algo análogo ocorreu com a Filosofia ao longo do mesmo período. A famosa distinção positivista entre proposições sintéticas e analíticas foi duramente criticada pelo filósofo americano Willard van Orman Quine, que resumiu sua tese na famosa metáfora:

O manto legado pelos nossos pais é um tecido de sentenças. Nas nossas mãos ele se desenvolve e muda, através de nossas revisões e adições mais ou menos arbitrárias e deliberadas, mais ou menos ocasionadas diretamente pela contínua estimulação dos nossos órgãos sensitivos. É um legado cinza pálido, preto com fato e branco com convenção. Mas eu não encontrei razões substanciais para concluir que existam quaisquer fios pretos ou brancos nele. [1]

Nessa correspondência, Quine aponta que esse “tecido de sentenças legado pelos nossos pais” é cinza, branco com convenção e preto com fato, contudo o autor entende não haver razões substanciais para concluir que existam fios pretos nem brancos. Assim, segundo o filósofo, esse tecido, que representa a nossa realidade, não pode ser claramente dissociado em fios pretos (significando fatos) e brancos (significando convenção).

Outro filósofo americano, Hilary Putnam, demonstrou uma indissociação análoga dentro da Ética, alegando o entrelaçamento (entanglement) entre fato e valor, o caso de interesse desta presente discussão. Essa é a distinção envolvida em uma das mais famosas dicotomias de toda a filosofia: a que decorre da “falácia naturalista” como apontada por David Hume. Na parte I do livro III da sua obra “Tratado da Natureza Humana”, Hume escreveu:

Em todo sistema de moral que até hoje encontrei, sempre notei que o autor segue durante algum tempo o modo comum de raciocinar, estabelecendo a existência de Deus, ou fazendo observações a respeito dos assuntos humanos, quando, de repente, surpreendo-me ao ver que, em vez das cópulas proposicionais usuais, como é e não é, não encontro uma só proposição que não esteja conectada a outra por um deve ou não deve. Essa mudança é imperceptível, porém da maior importância. Pois como esse deve ou não deve expressa uma nova relação ou afirmação, esta precisaria ser notada e explicada; ao mesmo tempo, seria preciso que se desse uma razão para algo que parece totalmente inconcebível, ou seja, como essa nova relação pode ser deduzida de outras inteiramente diferentes.

Em suma, proposições acerca do que “deve ser” não podem ser inferidas a partir do que “é” ou, nas palavras do matemático Henri Poincaré, nenhuma conclusão imperativa pode ser corretamente derivada de um conjunto de premissas que contém apenas afirmações no indicativo. Desde então, tal afirmação tem sido vastamente utilizada como pilar de um ceticismo moral dentro da Filosofia.

É interessante notar que a afirmação de Hume pressupõe uma metafísica substancial e não é, como julgado comumente, uma constatação meramente lógica, como dá a entender a perspectiva lógico-imperativa de Poincaré. O que evidencia isto é que Hume não se preocupa meramente com a validade de certas formas de inferência. Dito de outra forma, a simples formulação de que não se pode inferir “p&q” de “p” ou “q” não é suficiente para explicar a lei de Hume. Um “dever ser” não pode ser extraído simplesmente da forma de uma outra afirmação, mas sim decorre da compreensão do seu conteúdo. Segundo Putnam, foi assumida uma dicotomia metafísica entre matéria de fato e relação de ideias. Dessa forma, o que Hume quis dizer é que quando uma afirmação de “ser” descreve uma matéria de fato, então nenhum julgamento de “dever ser” pode ser derivado dela.

Ao estabelecer tal dicotomia, David Hume adotou um critério bem específico para sua noção do que são as matérias de fato: baseou-se em sua epistemologia pictórica. Observe que ideias, por outro lado, e assim como os valores, possuem características não pictóricas, podendo ser facilmente relacionadas com sentimentos. Assim, ao dizer que não se pode inferir um “dever ser” de um “ser”, Hume estaria também afirmando que não existem matérias de fato sobre bom, mau, virtude e vício. Se realmente existisse uma matéria fática sobre vício ou virtude, então também deveria ser possível representarem-se as propriedades do vicio ou da virtude de forma pictográfica, do mesmo jeito que se pode representar graficamente uma maçã. Surge aqui uma relação com a dicotomia entre o sintético e o analítico com uma aproximação do “ser” com o factual e do “dever ser” com o valorativo.

Com o incrível progresso científico obtido no fim do século XIX, e também influenciada por ela, a posição dos positivistas lógicos logo foi colocada em teste e se tornou praticamente unânime, não mais se admitindo, porém, uma definição de “fato” como impressão sensível, nos moldes humeanos. E por outro lado, tampouco interessava uma avaliação valorativa da ética normativa. Em suma, foi imposta a mesma validade de uma indispensável separação entre fato e valor, mas essa dicotomia não se baseava em qualquer exame sério sobre valor e normatividade ética, mas sim era focada na definição, de uma forma estritamente empírica, do que era “fato”. O empirismo e o positivismo lógico tratam dados empíricos como fatos observados e confirmados, portanto wertfrei, i.e, livres de valores ou convenções. No entender dos positivistas lógicos, as categorias utilizadas para enunciar fatos puros não possuem implicações ou conotações valorativas, não fazendo, portanto, sentido em perguntar se as leis da Mecânica Quântica são virtuosas ou más. Dessa maneira, a dicotomia entre fato e valor foi reforçada pela dicotomia entre objetivo e subjetivo.

III. Uma Crítica Pragmática ao Positivismo Lógico

Das grandes tarefas que o positivismo lógico empreendeu foi a tentativa de mostrar que a ciência pode ser operacionalizada sem que haja necessidade de admitir a existência de valores em seu interior, e sem conceder que ela seja irredutível a estes valores. É importante salientar, no entanto, que dentro projeto do positivismo não estava apontar impropriedades à ética e negar a existência de valores éticos, mas dentro das implicações gerais de suas teses estava, como já afirmado acima, implícita a carência de sentido na validade objetiva dos juízos de valor. No entanto, o que os positivistas lógicos não apreciaram é que, ao determinarmos os fatos, i.e., na estrutura interna da busca pela verdade factual, os próprios critérios que nos guiam na escolha das hipóteses (coerência, simplicidade, preservação da doutrina passada e similares) e, por conseguinte, na formulação das teorias – sob cujo prisma verificamos aquilo que se entende como uma “descrição correta do mundo” – pressupõem valores, os chamados valores epistêmicos. As ciências têm juízos que lhe estão pressupostos, e que são fundamentais para que resultados a ela requeridos como, por exemplo, a capacidade preditiva, sejam levados a cabo. A coerência, a simplicidade, a plausibilidade são exemplos bastante evidentes de como a ciência norteia-se por valores.

Tudo o que tem sido dito baseado em argumentos a favor do contextualismo e do relativismo ético poderia ser dito de modo análogo com relação aos valores epistêmicos: O argumento de que os valores éticos são metafisicamente anômalos (porque, entre outras coisas, não temos um órgão sensorial para perceber ‘o bom’) poderia transformar-se no enunciado ‘os valores epistêmicos são ontologicamente anômalos’ (porque não temos um órgão sensorial para perceber simplicidade e coerência).

Os argumentos relativistas e não-cognitivistas com relação à ética são geralmente fundamentados na perceptível variedade dos valores éticos nas diversas culturas humanas e na incompatibilidade de suas noções valorativas, que implicam, muitas vezes, em visões de mundo antagônicas sustentadas a partir destes valores. Contudo, poder-se-ia iniciar, partindo-se da desarmonia subjacente aos mundos éticos distintos, a avaliação de qual conjunto de crenças apresenta maior ‘coerência’, ‘plausibilidade’, ‘capacidade de explicar com simplicidade os fatos e ocorrências no mundo’.

No que diz respeito à desarmonia, e consequente falta de acordo entre as culturas distintas, tanto eticistas quanto cientistas naturais poderiam estar dispostos a dizer que não há objetividade em seus enunciados culturais que possam ser universalmente válidos. Assim, no caso de o argumento relativista realmente provar que os valores éticos são relativos e contextuais, ele também provará, por analogia, que os valores epistêmicos padecem da mesma fragilidade, colocando por tabela em cheque as reivindicações de objetividade dos enunciados científicos. No lugar de nos contentarmos com o argumento relativista em ambos os casos, deveríamos compreender melhor a indispensabilidade de tais valores, sejam eles éticos ou epistêmicos, para a possibilidade de conhecimento.

O ceticismo ético exposto é um dos pilares intelectuais do chamado relativismo cultural, e tal relativismo está subtendido nas consequências que estão por ele alinhavadas no que diz respeito aos compromissos da teoria da ciência cum naturalismo que tem grassado no meio da filosofia analítica moderna – mais precisamente aos ramos mais vinculados à herança positivista. Essa teoria da ciência, assim qualificada, mantém relações internas com uma metafísica minimalista, pois tenta abandonar o suporte metafísico clássico que garantiria a correspondência imediatizada com o mundo, mas almeja, ao mesmo tempo, manter uma relação correspondencial com a realidade. Com isto, assume posições que são valorativas, ainda que estejam convenientemente ignoradas. O argumento contra o cientificismo neopositivista pode então ser posto da seguinte forma:

  1. A justificação é uma questão de aceitar uma ou outra proposta – que será, sempre, convencional, segundo um grau de confirmação;
  2. Essas propostas pressupõem valores, quaisquer que elas sejam;
  3. Não é possível avaliar quais propostas positivistas são melhores, ou seja, quais valores devemos usar para justificar nossas afirmações, de modo que, em última instância, nossas escolhas estão baseadas em fins aleatoriamente almejados;
  4. Logo, as concepções positivistas são uma expressão de escolha subjetiva norteada por fins, que são, ademais, organizadas em uma linguagem científica, com o escopo de atender a certos fins, como a predição.

Esta noção da incompletude da ciência tem portanto como base a abordagem que consiste em tomar a razão em sua acepção essencial prática, uma configuração baseada na distinção kantiana entre entendimento e razão. O eixo principal desse argumento sobre a incompletude do projeto positivista a respeito da ciência é o que aponta a ausência de consciência de que a prática científica está repleta de valores que a formam, o que o leva a dizer que “sem valores não teríamos um mundo”. A razão é prática, por isso a epistemologia estará incompleta se não incluir a ética. A investigação científica está direcionada para alcançar a verdade e a objetividade. Este anelo exige um funcionamento peculiar para que o objetivo seja logrado ou, na linguagem de Habermas, há uma “busca estruturada normativamente” que possibilita que tal desejo de objetividade e verdade seja atingido. Essa estrutura não escapa ao condicionamento de acoplar em sua configuração valores que lhe são originalmente extrínsecos: coerência, simplicidade, elegância são alguns exemplos de valores que se tornam intrínsecos a este funcionamento.

Não existindo uma diferença qualitativa entre os valores utilizados como “guias de ação” da investigação científica e os valores que temos chamados de éticos, a inevitável pergunta que emerge desta discussão é: se os valores que regulam o comportamento da investigação científica nunca tiveram sua pretensão de objetividade ameaçada, por que no caso da ética os valores análogos geram os problemas que temos considerado com respeito à sua objetividade? Tal pergunta precisa ser respondida antes que qualquer dualização espistemológica entre fatos e valores seja proposta e permanece sem resposta por parte dos céticos e positivistas de toda espécie.

IV. A Ética Discursiva e a Existência de Valores Universais

Se a razão é prática e a busca pelo conhecimento científico pressupõe valores,  é natural perguntarmos sobre o status epistemológico de tais valoes e sobre suas justificativas. Observe que tal problema pressupõe uma ética deontológica como plano de fundo pois quaisquer soluções consequencialistas nos faria regredir para a etapa inical ou nos colocando sob uma regressão infinita. Observe também que a mesma crítica feita ao saber sintético pode ser facilmente generalizada e com deveras facilidades para os ramos do dever-ser. Com efeito, o saber moral está estritamente sujeito à noção de universalização: os inúmeros valores dispersos nos seios de distintas culturas possuem um conceito de verdade restrito ao contexto sócio-cultural no qual foram gerados e, quando ultrapassam as fronteiras destes mundos sociais, surge o problema de se estabelecer um tipo de objetividade que possibilite sua universalização – e de fato, por “norma” adotamos o entendimento de Habermas que a define como um enunciado de obrigação universalmente válido. Nosso ponto de partida é a constatação de que, assim como a busca do conhecimento empírico pressupõe valores, a busca pela validação de enunciados normativos também.

Em face de qualquer tentativa prática de universalização (validação) normativa, o falante tenta convencer racionalmente o ouvinte das suas próprias razões. Assim, tudo o que o falante diz tem uma pretensão de validade, ou seja, ele somente pode propor coisas que ele tem bons motivos para considerar verdadeiras. Portanto, se o ouvinte pode ser convencido, é porque as afirmações do falante podem ser justificadas discursivamente (o que Habermas chama de resgate da pretensão de validade). E, no agir comunicativo em geral,

  1. quando uma pessoa pratica um ato ilocucionário (ato de fala) regulativo (deôntico), esse ato tem uma pretensão de validade (pretensão de correção), na medida em que o falante tem boas razões para convencer o ouvinte de que ele deve atuar conforme o que ele diz;
  2. quando uma pessoa pratica um ato de fala constatativo (assertivo), esse ato tem uma pretensão de verdade, na medida em que o falante deve poder justificá-lo racionalmente; e
  3. quando uma pessoa pratica um ato de fala expressivo (emotivo), esse ato tem uma pretensão de sinceridade, mas essa sinceridade não pode ser demonstrada argumentativamente, podendo ser apreendida apenas pela análise do efetivo comportamento do falante.

Dessa forma, tanto a verdade das proposições assertóricas quanto a validade das proposições normativas (deônticas) deve poder ser resgatada argumentativamente, ou seja, deve haver bons argumentos, que as fundamentem. No âmbito da ética, interessam os atos de fala descritos no primeiro item acima, pois são precisamente tais práticas que tornam o saber moral possível.

Se uma determinada configuração do agir comunicativo é um pré-requisito para a busca da validação normativa, então seus pressupostos são uma condição sine qua non para a ética, assim como os valores epistêmicos o são para o conhecimento científico. Os pressupostos necessários para uma situação ideal de fala são, por definição, os pressupostos sob os quais quaisquer partícipes da discussão ideal deverão estar concordes no que diz respeito às normas que viabilizam a dinâmica da ação comunicativa. Isto quer dizer que os membros engajados devem “falar honestamente”; ‘justificar o que é dito’; ‘argumentar racionalmente e com isto procurar convencer, ao invés de valer-se de métodos escusos’, etc.

A “situação de discussão ideal” requer que haja uma admissão de todas as normatizações e máximas que irão ter como consequência a operacionalização dos procedimentos com vistas a gerar o contexto ideal de fala. Esta é a exigência intrínseca da qual os participantes engajados na discussão ideal não poderão se esquivar, sendo então a justificação destas normas e máximas baseada no poder obrigatório do próprio pensamento e da comunicação racional. Um modo de entender esta justificação se dá pelo conceito apeliano – devido ao filósofo alemão Karl-Otto Apel – de contradição pragmática-transcendental, um tipo específico de contradição que emerge quando o conteúdo proposicional de uma afirmação contradiz os pressupostos últimos de possibilidade de afirmá-la. E é analisando o chamado a priori da argumentação, bem como verificando as exigências para uma situação ideal de fala, que obtém-se as proposições morais da chamada Ética Discursiva.

Vejamos um exemplo, devido ao térico legal Frank van Dun. Em qualquer argumentação, não se pode propor a sério o argumento de que determinado ponto não é passível de discussão, que ele não tem pretensões de validade lógica, ou que não se deveria levar a sério a validade lógica de um argumento, sem destruir o próprio ponto de fazer o argumento de tal proposta – seja ele qual for. Uma contradição dialética emerge quando alguém afirma: Você deve levar a sério o argumento de que você deve não tomar meus pontos a sério. Aquele que seriamente faz um argumento, na verdade refere-se a si mesmo e, pelo menos, aos membros de seu público-alvo, para a norma de que deve-se tomar o seu próprio argumento ou o de outro como racional e que não deve-se descartar o argumento ou as dúvidas ou os contra-argumentos de outros sem dar razões pertinentes relevantes para fazê-lo. Assim, quando a afirmação de que “não se deve levar a sério a razão ou a argumentação” for feita, sendo apresentada não como uma piada, mas como uma proposta séria de argumentação, então a norma oposta “você deve levar a razão e a argumentação a sério”, é em qualquer caso simultaneamente postulada ou pressuposta como válida e necessária, e é, além disso, argumentativamente ou dialeticamente irrefutável, obtendo-se assim a chamada contradição performática. Extrae-se dessa forma a conclusão de que a pretensão de validade é um valor objetivamente válido e pressuposto na argumentação racional.

Conclui-se assim que os mesmos insights que nos levam a refletir sobre o entrelaçamento entre fato e valor nos levam, quando aplicados à epistemologia da validade normativa, a critérios que evidenciam a objetividade e a obrigatoriedade racional de uma série de valores – a saber, aqueles exigidos na situação ideal de fala. Não só, portanto, a clássica dicotomia entre fatos e valores está erguida sob alicerces já abalados dentro do pensamento filosófico, como também a objetividade dos últimos é pressuposta na busca pelo o que entendemos por fatos e pode ser evidenciada pela própria prática racional no âmbito da argumentação.

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Referências

[1] PUTNAM, Hilary. The collapse of the fact/ value dichotomy and other essays. Cambrige, MA: Harvard Press, 2002.

[2] PUTNAM, Hilary. O colapso da verdade e outros ensaios. Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2008.

[3] PUTNAM, Hilary & HABERMAS, Jürgen. Normas y valores. Introducción, traducción y notas de Jesús Vega Encabo y Javier Gil Martín Madrid: Editorial Trotta, 2008.

[4] HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro, 1989.

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