Socialismo e Política

Por Mário Ferreira dos Santos

[Este ensaio corresponde ao primeiro capítulo da obra “O Problema Social”, publicado no Brasil em 1962. As únicas modificações no texto em relação ao original ficaram por conta de uma “atualização” no português para as regras gramaticais e ortográficas vigentes, o que tornará a leitura mais fluída, em nosso entendimento. Apesar de ser uma crítica libertária voltada abertamente aos socialistas estatistas, que aderem ao jogo político como ferramenta de implementação de suas ideias, acreditamos que os argumentos usados também se aplicam as demais correntes do libertarianismo, em especial aos austrolibertários que optam por usar o estado para verem concretizadas seu ideário, como costuma ocorrer em períodos eleitorais.]

Não é de hoje que a má política (isto é, a arte de conquistar o poder e de conservá-lo, com todo o seu cortejo de oportunismo, misérias, infâmias, indecências, processos escusos, etc), tem sido um dos maiores males na luta pela emancipação humana. A política, como método de ação dos socialistas, é um método indireto, mediato, o qual exige a ação de intermediários. Como sempre sucede, o meio acaba tornando-se mais importante que o fim, pois tende a substituí-lo, e a luta emancipadora, tendente para um ideal final, acaba por endeusar os meios, como acontece na Rússia, onde se diviniza o estado soviético.

Todos os partidos políticos terminam fatalmente, mais dia menos dia, em se preocuparem mais com os meios do que com os fins.

Esta é a razão do porquê  os libertários combatem a política, e julgam-na o processo mais falso de luta pela emancipação social. Nunca, pela política, se consegue atingir os fins desejados e, quando se consegue alguma coisa, é sempre apesar da política.

Dizem, hoje, os políticos, que combater a política é fazer obra fascista. Mas esquecem que quem desmoraliza a ação política não é a campanha anti-política, mas sim a ação dos políticos! O espetáculo dos parlamentos, a falta de dignidade dos chamados indevidamente “representantes do povo”, sua subserviência a interesses inconfessáveis, sua ação mentirosa, seu prometer desmedido, sua traição constante aos princípios, tudo isso, em suma, é que desmoraliza a política. São os políticos que fazem obra fascista, porque a política só serve para desmoralizar a si mesma, pela simples razão que leva dentro de si o próprio veneno que a mata, porque encerra em sua essência o vírus do domínio, da vitória fácil, da mentira, da intriga.

Com o desenvolvimento da técnica, da ciência da administração, com a possibilidade que há de se congregar numa sociedade humana as forças de produção e de consumo para uma obra homogênea (queremos nos referir, é lógico, a uma sociedade cooperacional), a política é algo de anacrônico, de impróprio, de emperrante, de obstaculizador. Em suma, estaria bem num museu de curiosidades.

Numa sociedade capitalista, a política só pode favorecer ao fascismo, ao cesarismo, porque não é o meio apropriado para as transformações de índole social, as quais devem ser feitas pela ação congregada das próprias organizações populares, por livre iniciativa.

Querer chamar de política essa ação, é falsear o seu sentido verdadeiro e prático. Política é uma arte intermediária, de métodos intermediários e indiretos, com a finalidade de obter o poder e de conservá-lo. Querer dar-lhe um conceito puro e científico, é apenas separá-la da realidade prática, da praxis.

A luta contra a política é uma luta de moralização social. A transformação social é obra de todos, a todos compete, e todos precisam empregar os maiores esforços para conseguir realizá-la. A política tende para o menor número, para um grupo de privilegiados. E o mesmo fenômeno que se dá com a organização burocrática, em que o burocrata cada vez mais se burocratiza, o político cada vez mais se politiquiza.

Enquanto o socialismo usar a arma da política estará fazendo o papel das classes dominantes, estará servindo-as, dizem os libertários. Se os socialistas querem socialismo, é necessário, desde já, começar a fazê-lo, socializando seus atos e sua ação. No terreno político, que é sempre o de um número reduzido, e de alheados da produção, não se faz obra socialista. Faz-se apenas obra política.

A crise do socialismo moderno é produto da sua ação política, proclamam os anarquistas. Há socialistas em todo o mundo, aos milhões; mas, socialismo, onde está?

Há o poder do estado hipertrofiado, há a nacionalização das empresas, há a centralização burocrática, a comissariocracia, a tecnocracia, o dirigismo, mas, socialismo onde está? Há operários assalariados, há produtores oprimidos, há sacrifícios sem conta; mas, socialismo onde está?

Em suma, socialismo político é política sem socialismo, e nada mais.

Por isso os libertários consideram que um dos erros mais desastrosos, que têm perturbado a ação dos socialistas do mundo inteiro, é o aproveitamento dos meios eleitorais e políticos em sua ação. Muitas são as razões que oferecem os partidários dos meios eleitoralistas na luta emancipadora dos oprimidos. Podemos sintetizá-los aqui:

  1. Oferece uma tribuna de propaganda para os ideais socialistas;
  2. As imunidades parlamentares garantem uma propaganda mais firme dentro da ordem burguesa;
  3. Permite conhecer o apoio popular de um partido pela votação, e de seus progressos ou regressos na confiança e no prestígio popular.

São esses os três argumentos principais dos eleitoralistas. Parecem poderosos e eficientes, mas como os libertários se negam a separar a teoria da prática, pois é na prática que vamos encontrar o melhor fundamento das teorias, e a força da teoria, quando ela é aplicável, com eficiência, na prática.

Por princípio são eles anti-partidários, porque consideram o partidarismo, que sempre se inicia vacilante, tender, finalmente, a tornar-se exigente, opressivo, e criar abismos no movimento das classes oprimidas.

Para a burguesia, nada melhor que a luta partidária e eleitoralista dos partidos operários. Ela sabe perfeitamente que, por esses meios, o proletariado se afasta cada vez mais de sua verdadeira luta, e adia, continuamente, o dia da renovação social, que há séculos vem sendo desejada.

As razões, que apontam os libertários em defesa de sua atitude, são as seguintes:

Quem estudar detidamente a história dos partidos socialistas, verificará, como uma constante em todo o seu desenvolvimento, este fato inegável: todo partido socialista que, por estas ou aquelas razões, não participa da luta eleitoral, critica continuamente os partidos, que dessa luta se aproveitam, de se terem desviado de seus verdadeiros princípios, de se terem tornado colaboracionistas, de se terem perdido nos meios e esquecido os fins, de incluírem “traidores” em suas fileiras, de se terem verificado em número ascendente o dos que se afastam dos princípios ideológicos, para empreenderem acordos, conchavos e combinações, que têm servido apenas para desvirtuar a verdadeira luta dos trabalhadores. Leia-se, por exemplo, toda a literatura de polêmica do marxismo, e vemos nela, quando os marxistas não ocupam postos de eleição, criticarem sempre os outros partidos políticos do proletariado de servirem de apoio à burguesia, de colaborarem vergonhosamente, de se afastarem, frequentemente, dos seus princípios ideológicos. E quando os marxistas se aproveitam desses mesmos cargos eleitorais, serem continuamente acusados, pelos que não participam do poder, dos mesmos erros e desvios, que se verificam tão tragicamente na história dos partidos populares.

Não podemos compreender que a repetição desse fato, repetição teimosa e constante, não sirva para abrir os olhos de muita gente, dizem os anarquistas. Por um empirismo simplista, por uma incompreensão categórica da realidade, julgam muitos que tais fatos sucedem “apenas porque os representantes do povo não eram bastante puros”, e erraram por fatores de ordem “puramente subjetiva”. Ora, tal explicação não deve estar nos lábios de um verdadeiro socialista. Isto não é explicar, mas apenas querer iludir a própria verdade; isto é, mistificar a massa sob a ingênua afirmação de “que eles erraram porque eram eles, mas nós seremos diferentes”.

E quando sobem “esses puros” ao poder, tornam-se iguais, em tudo e por tudo, aos antigos “traidores”, que foram tão terrivelmente acusados.

Se tais fatos, que se repetem constantemente, não abrem os olhos de muitos, é que a cegueira partidária esconde a realidade da vida e a verdadeira significação degenerativa que existe na luta eleitoral e política. E não é só. Não são apenas os “representantes do povo” os acusados de desvio, mas as próprias bases populares dos partidos eleitoralistas, que são acusadas de inércia, de desvios graves e perigosos, de se impressionarem pelo liderismo, de exaltarem indevidamente a figura de “chefes salvadores”, de permitirem que os “traidores se instalem no meio da massa”, para afastá-la do seu verdadeiro caminho de renovação e de transformação social.

Portanto, a degenerescência que se observa, não só contamina a cúpula dos partidos eleitoralistas do proletariado, como também a própria base. É isto o que lemos constantemente na literatura de polêmica dos socialistas, é essa queixa secular que paira nas páginas dos autores sinceros e leais, é essa explicação, cheia de angústias e de acusações violentas, que sempre fazem os que ainda não usam o sistema eleitoral contra os que o usam e dele abusam.

Portanto, ante a repetição sociológica dos fatos, devem-se procurar as verdadeiras causas objetivas que levam a tais desvios, sem deixar de lado as razões de caráter subjetivo, que, isoladas, nada explicam, e servem apenas para lançar uma nuvem de fumaça aos olhos do proletariado.

A corrupção, que se verifica teimosamente nos partidos populares que usam da luta partidária e eleitoralista, tem causas mais reais e mais objetivas do que julgam muitos, e é fácil explicá-las. E assim a explicam os libertários:

A luta política, dentro dos quadros legais do capitalismo, é uma luta essencialmente burguesa e não proletária. Com a base econômica e financeira, dominada pela burguesia, e por seus testas de ferro, a ação dos representantes operários cinge-se às cadeias férreas das leis burguesas. Não é possível romper essa barreira e, na armadilha dos parlamentos, caem os mais puros e ingênuos lutadores das grandes reivindicações proletárias.

A luta política é uma luta burguesa e não proletária.

O carácter de contemporização, que é inerente ao movimento político, força o aprazamento, cria empecilhos a toda incitação à atividade, provoca a inércia, convence da impossibilidade de vencer o emaranhado das leis burguesas, feitas inteligentemente para criar obstáculos à ação mais rápida, pois a burguesia sabe conscientemente, e por instinto, que toda ação lenta lhe é sempre mais eficaz que a ação rápida, por desenvolver um profundo desejo de passividade, de inércia pelo retardamento, que tem profundas influências psicológicas.

Os adiamentos das resoluções, o adiamento contínuo, a demora das informações oficiais, tudo isso é “ducha de água fria” na incitação e no calor que vibra e aquece os elementos lutadores, e a pouco e pouco, a burguesia sabe que o ambiente parlamentar, a lentidão de suas resoluções, o clima parasitário que se forma, o afastamento dos representantes do povo da produção e do contato com os companheiros, criam uma degenerescência na ação que se desgasta, que se amortece e, em pouco tempo, se vê o espetáculo constante do movimento socialista: os representantes socialistas acham-se num choque crescente com as massas.

Enquanto estas lhes pedem ação, eles respondem que não podem ir tão depressa como elas desejam. E é natural, posteriormente, que busquem justificar a inércia que aos poucos deles se vai apossando. E ao explicá-la ante as massas, transmitem a essas o espírito de inércia e, nestas, despertam a própria inércia, esse desejo de passividade, essa marcha e impulso para o nada, que há em potência em todos os homens e do qual não estão alheias as próprias massas.

Sabe a burguesia que as reformas têm de se processar na sociedade. Ela sabe perfeitamente que a ordem, por ela instituída, é pouco justa, e que não corresponde aos desejos dos oprimidos, empolgados pelas esperanças de se libertarem das cadeias.

Por mais que seus doutrinadores, filósofos e cientistas procurem por todos os meios criar filosofias e doutrinas, que assegurem a irrealidade da vida objetiva, a superioridade de uma concepção idealista e espiritualista do mundo, a afirmação de que a História é apenas um suceder de fatos, e que o regime capitalista mercantil, fundado no lucro a todo o custo, é o que melhor corresponde aos desejos e aos estímulos humanos, a burguesia sabe, e isso o confessa intimamente, que tudo é passageiro, que a sua situação como classe dominante é a repetição sociológica de outras classes, que dominaram e cederam o lugar a formas mais evoluídas.

Ela sabe que não poderá deter a marcha dos acontecimentos, mas sabe, também, que poderá, pelo menos, retardá-la. As reformas e as transformações da sociedade serão inevitáveis. Elas sobrevirão, mas é possível retardá-las. E a política é a grande arma burguesa de retardamento.

E prosseguem os libertários em seus argumentos:

Se as reformas sociais se processassem facilmente, se a ação direta das massas, ação imediata, sem intermediários, sem políticos, se processasse a fazer reformas, essas sobreviriam rápidas, umas após outras, de tal forma, que a sequência dos acontecimentos teria um ritmo mais veloz, e a transformação completa da sociedade se processaria num lapso de tempo muito menor.

Ante essa imprescritibilidade dos acontecimentos, a burguesia usa do meio mais hábil e mais sagaz criado pelo espírito humano: a política, a ação indireta, mediata, o intermediário. Desta forma, preso no emaranhado das leis, no ritmo lento dos parlamentos, todos os entusiasmos se esfriam e as massas, ante a realidade dos fatos ficam aguardando nas eleições seguintes uma vitória mais completa, a eleição de outras “esperanças”, para que elas realizem os seus desejos.

Sabe também a burguesia que a melhor forma de desmoralizar um partido é elevá-lo a uma posição de mando. Os mandatários nunca podem realizar, nem uma parcela mínima do que prometem. Para obterem maior número de votos, são obrigados a fazer promessas, muitas das quais sabem perfeitamente que não podem cumprir. São obrigados a oferecer às massas um futuro que não lhes está nas mãos. Guindados ao poder, sob entusiasmo e esperanças, suas realizações são apenas migalhas do que cai da mesa de banquete da burguesia. E, sobrevém a desmoralização do partido! São também os representantes do povo, dos operários, que traem, os Laval, os Millerand, que entram a fazer parte dos conchavos políticos, e que se embrutecem na vida parlamentar, que são empolgados pelos prazeres fáceis das grandes capitais e da vida parasitária dos mandatários do povo, das conversas fúteis dos cafés dos parlamentos, dos jantares opíparos e do exemplo pernicioso de todos os salafrários que os cercam, e que lhes oferecem as possibilidades de ganhos desonestos, que contribuem para os reflexos do movimento socialista.

E esses “traidores” são os que desmoralizam depois os partidos!

E nas eleições seguintes, o eleitorado simpatizante, desanimado com a ação dos “representantes”, vota noutros partidos, acredita em novas “esperanças”, assim o tempo passa.

Veja-se o exemplo de toda a história do socialismo eleitoralista. Sobem partidos socialistas, e nada de socialismo. Na eleição seguinte, sobem os conservadores, e tudo fica como estava, ou pior. E a grande ingenuidade das massas, mistificadas por seus falsos defensores, é explorada, magnificamente, para que tudo corra em proveito dos dominadores, alegam os libertários. E prosseguem:

Essa a grande habilidade e sagacidade dos burgueses para iludirem as massas. Eles, quando é conveniente, vestem-se das cores vermelhas, mandam seus representantes para os partidos de esquerda, usam também frases e palavras de ordem revolucionárias, pregam “a luta pacífica das urnas”, a “grande arma do cidadão”, a “alavanca da História”, e vão contribuir para, de cambulhada com os partidos operários, criar a maior confusão no meio dos trabalhadores.

A política serve para isso: os ambiciosos de mando, os que desejam fazer carreira política, os que querem sobressair-se pela posição social, vão procurar os meios operários e os partidos políticos dos trabalhadores.

Quantos políticos reacionários de hoje começaram a criar nome nos comícios operários, ao lado dos partidos de esquerda, pregando ideias rubras, passando até pelas delegacias de polícia, para, depois de guindados ao poder, fazerem cisões dentro dos partidos ou aderirem a outros, e de degrau em degrau, chegar até a adesão, na meia idade, aos partidos conservadores.

A maioria dos políticos conservadores foram, em sua juventude, políticos socialistas! E prosseguem os libertários:

Atentem para esses fatos os trabalhadores e os oprimidos do mundo.

É necessário de uma vez por todas ter memória.

É preciso conhecer o passado e procurar no passado os reacionários do presente. Grande é a colheita que os burgueses têm feito nos partidos políticos dos trabalhadores.

Ora, todo homem, no mundo, tem um desejo de mandar, um impulso de domínio e um impulso de obediência e de passividade. Essa parte ativa do homem, se levada para o terreno da política, se na política encontrar seu campo de ação e de desenvolvimento, logo se viciará na forma de mandonismo. A luta indireta, a ação indireta, gera a forma viciosa do impulso de ação: o mandonismo, o liderismo, o autoritarismo, o politiquismo.

A ação direta deixa que o impulso ativo do homem se manifeste com toda a sua pureza, sem desvios que o viciam, e leva-o à ação verdadeiramente socialista, ao desejo de erguer os irmãos da passividade para a ação; da inércia para a rebeldia. Ela é criadora, porque transforma cada um num ser responsável de ação socialista.

Por isso, a política é a arma mais amada pela burguesia. A burguesia inteligente do mundo inteiro não combate os partidos políticos operários senão aparentemente. Ataca-os, acusando-os de revolucionários e exigentes, para iludirem as massas, para fazer a essas acreditarem que realmente eles são revolucionários. Mas a burguesia inteligente sabe perfeitamente que esses partidos são os melhores guardiães de seus tesouros, porque, ao darem às massas uma ilusão de conquistas, ajudam também a desmoralizar o socialismo e a apresentar aos olhos do povo o regime capitalista como algo de imprescritível e sólido, como algo de eterno.

E que melhor para tal que os “parlamentos”, onde se debatem todas as ideias e se aumenta a confusão do povo? Que melhor que as campanhas políticas, essas “adoráveis dormideiras”, esse ópio das multidões, que lhes dão a suave e doce ilusão de que estão realizando socialismo e construindo o seu amanhã, através de pedacinhos de papéis, postos religiosamente nas urnas silenciosas?

A burguesia sabe que os partidos operários são o seu melhor aliado, o aliado silencioso, o aliado indireto. Com suas agitações eleitorais, eles dão vazão às forças do proletariado, aos desejos de rebeldia do proletariado. É uma forma de desviar esses impulsos, tão perigosos, para fins muito mais interessantes aos senhores do mundo. Uma campanha política custa muito dinheiro e muito trabalho. Toda a carga ativa das massas, prestes a explodir, é canalizada habilmente para a campanha eleitoral. Distribuição de manifestos, pregação de cartazes, aliciamento de eleitores, comícios eleitorais, trabalho, trabalho, trabalho, que se gasta, esforços inauditos perdidos. Mas se esse esforço fosse empregado para uma ação direta das massas, para a educação socialista dos oprimidos, para ensinar-lhes os meios práticos de luta, e de organização econômica e, para uma vida socialista, seriam mais úteis. É preciso mostrar, exclamam os libertários, que o caminho do socialismo não é um caminho de rosas, mas um caminho de lutas, de grandes sacrifícios, de lágrimas, de dores, de ingentes esforços.

Toda essa carga ativa, que se concentra nas multidões exploradas, não deve ser aproveitada, mas desviada. Não deve ter seu curso natural, direto, mas indireto, desviado pelos políticos, pela luta política.

Depois, o caminho das urnas é mais fácil, menos trabalhoso. Toda a inércia, todos os impulsos de passividade, que estão dentro do homem, predispõem a receber de boa vontade tudo quanto signifique o menor esforço. A campanha política tem essa miraculosa eficácia. Desperta a passividade ao desviar os impulsos de ação para os meios, em vez dos fins.

O homem prefere acreditar que a luta eleitoral é mais eficiente, porque o dispensa de uma ação mais trabalhosa. A crítica libertária vai ainda mais longe, e os argumentos poderiam encher volumes e volumes. Mas, em síntese, os libertários chamam a atenção para os socialistas que ainda se iludem com as lutas políticas, que se dispam de suas couraças ideológicas e da ganga bruta de suas mistificações doutrinárias, que esqueçam um pouco a teoria, e olhem os fatos que se desenrolam; verão sempre, em toda a parte, a política servir de arma para os dominadores, para os poderosos, e que, como arma, provou uma eficiência muito superior à das religiões. Hoje o clero é posto um pouco de lado, porque a sua eficiência na conservação da ordem existente, é secundária, e a política é melhor usada, porque é uma arma mais segura. E o clero tanto compreendeu isso, dizem os libertários, que, para não desaparecer, fez-se também político, e até socialista.

Assim, sintetizando:

  • A luta pelos meios é a ação indireta;
  • A luta pelos fins é a ação direta.

Os socialistas libertários preferem esta última, e a justificam. A primeira é um desvio do verdadeiro impulso humano de ação que, no oprimido, se manifesta num impulso de rebeldia.

A segunda são os impulsos, realizando-se plenamente, plenamente conscientes e criadores, com todo o seu caráter de iniciativa. O primeiro cria massas e conserva as como tal, isto é, como massas de manobras, como multidões obedientes aos gestos e às palavras de ordem dos líderes, chefes, etc. A segunda desenvolve no homem a capacidade criadora, porque não tira das massas o espírito de iniciativa, e modela indivíduos, pessoas.

Analisemos mais este ponto tão importante para a compreensão dos porquês das táticas dos socialistas libertários. Afirmam que muitas vezes são obrigados a penetrar no terreno da Filosofia e da Ciência, na explicação dessas duas formas de tática, porque a Ciência e a Filosofia vêm em seu abono e justificam poderosamente o acerto de suas opiniões.

Há, na Biologia, um fenômeno que não se observa na Mecânica. É o da “incitação”. Todo ser vivo é incitável, isto é, uma força exterior não produz uma ação à ação impulsionadora, como, por exemplo, uma bola de bilhar, impulsionada contra outra, transmite à segunda, no início, a mesma força que ela tem. No ser vivo, a incitação pode produzir efeitos maiores. O impulsionado pode realizar mais do que a força que o impulsiona.

Nesse fenômeno biológico da incitação, colocam os libertários uma das bases da ética. É uma comprovação do valor, da eficiência dos impulsos éticos. O homem é um animal ético e, por ser ético, é que é homem. É o homem um ser, como biológico, sujeito à incitação, e esta, na verdade, é um aproveitamento de energias guardadas, que podem brotar a um impulso e superar esse impulso.

Quando Kropotkin fundamentou o apoio-mútuo como base de sociabilidade dos seres vivos, verificável até nos animais de rapina, em certas circunstâncias, fundamentou ele a ética num fato de economia animal e até biológico. Mas Kropotkin ainda não havia visto tudo. É que, pela incitação, pode o homem ser levado a mais do que normalmente pode realizar.

Nos próprios animais se verifica o poder da incitação, como nos cães, cavalos, animais de carga. A incitação pode levá-los a ir além de si mesmo, é o que se verifica sobremaneira nos cães e animais de corrida. Todo o ser vivo, sendo suscetível de um aumento de suas reações, é por isso incitável. O brio, por exemplo, quando explorado nos cavalos de corrida, realiza verdadeiros milagres e não poucas vezes se tem visto esses animais realizarem muitíssimo além de suas próprias possibilidades, chegando até à morte violenta, após um esforço inaudito.

Tais fatos, que o mundo animal nos mostra, é mais evidente entre os homens. Quem não fez ainda dessas experiências junto às crianças, aos jovens, aos homens em suas lutas, em seus combates, na guerra? Quem desconhece, por exemplo, o poder de incitação das palavras nos comícios, nos combates, etc?

É nessa potencialidade do homem, que eles colocam também um valor ético e fundamentam a ética. O homem pode ser incitado ao bem como ao mal, pode realizar além de seus impulsos naturais, e pode realizar muito mais, e mais intensamente, aquilo para o qual tem tendências naturais. Tais fatos são tão comezinhos na vida quotidiana, que não necessitam provas, porque cada um as encontra facilmente.

As condições materiais podem gerar determinada consciência. O marxismo, em sua interpretação, não está errado, mas não contém toda a verdade. Além da formação dessa consciência, que é um reflexo das situações de ordem material, a incitação pode levar a formar uma consciência potencialmente maior, e pode atualizar-se em atos que superam as causas, porque podem congregar forças latentes e despertar outras. Não é o homem um ser autômato, mas um ser biológico, cujas reações não são apenas as físicas.

Se bem estudada a História, verifica-se facilmente que os momentos de indignação moral levam os oprimidos a gestos mais decisivos que as simples razões de ordem puramente material.

Não se explica a revolução francesa apenas pelas condições materiais da época, mas pela indignação ética provocada pela vida dissoluta da corte de Luís XVI, pelos escândalos que corriam, (“colar da rainha” e outros). A comuna de Paris nasceu, também, da indignação ética que provocou, no povo parisiense, a traição das forças governamentais da França, a traição e a covardia dos políticos, dos chefes militares, etc. A ameaça de Paris ser invadida pelas tropas de Bismarck indignaram o povo da capital francesa. Não que se negue a influência dos fatores materiais. Eles predispõem as condições para a indignação ética e para a incitação à luta. As condições materiais são causas predisponentes. (Usamos a expressão causa como práxica, em sentido puramente libertário).

As condições morais, éticas, são as causas emergentes. Sem uma indignação e uma incitação consequente, nenhum povo é arrastado a gestos decisivos.

Esta é uma das bases biológicas da ética, no sentido que os socialistas libertários a concebem.

É muito comum ouvir-se entre os socialistas autoritários, aqueles que julgam que o socialismo só será realizado através de uma organização autoritária, dizerem que o socialismo que acredita na realização de uma sociedade melhor pela iniciativa das próprias organizações administrativas de homens livres, reunidos segundo suas afinidades e federados numa organização que será a própria sociedade humana, não tem ele o menor fundamento científico nem filosófico em suas afirmações.

E dizem mais: dizem que “o socialismo libertário é apenas criação de alguns filósofos ou sentimentalistas em disponibilidade que, um dia, sem a menor apreciação dos fatos e da História, puseram-se a sonhar com um mundo melhor, e o construíram, através desses sonhos e sobre esses sonhos, a ideologia que tem a mesma firmeza que os castelos construídos no ar.”

Contudo, respondem os libertários, devemos frisar um fato perfeitamente observável por qualquer um. É este: enquanto os socialistas libertários estudam e conhecem a obra dos autoritários, estes, num alarde de ignorância palmar, nada conhecem do pensamento libertário e, do alto de sua auto-suficiência, proclamam a inanidade das doutrinas libertárias. Não é outra coisa o que vemos nas obras de Engels, de Marx, de Lenine, de Plekhanov, e muitos outros autores autoritários.

Convém dizer de antemão que o socialismo libertário, em seus aspectos mais gerais, não é o produto de elucubrações de filósofos, não nasceu em gabinetes, nem em longas e profundas análises de fatos sociológicos ou históricos ou filosóficos. Absolutamente não. Nasce de uma indignação moral, de um desejo de justiça, de uma revolta à opressão, de um anseio de liberdade e de dignidade humana. Naturalmente, que tais expressões causam sorrisos aos autoritários. São excessivamente jocosas para eles, porque as não entendem, não as vivem, não creem nelas.” Mas os libertários prosseguem: “o socialismo libertário é velho como o homem, e sempre, em todas as épocas, teve suas manifestações mais diversas, consoante as condições técnicas e históricas da vida humana. Sempre que houve opressão, houve alguém que contra ela se rebelou, houve quem não achou justificável a opressão e que não devia ser substituída por outra, nem tampouco que o caminho da liberdade fosse o mesmo caminho da ditadura.

Ora, nem todos os escravos se rebelam contra a escravidão. Também há escravos que querem apenas mudar de senhor. Não foram esses os que construíram a opinião libertária. Libertária foi a opinião dos que, revoltados contra a opressão, quiseram destruí-la, e não substituí-la; quiseram marchar pelo caminho da liberdade, acreditando só poder tornar prática a liberdade pela prática da própria liberdade.

Dessa forma, libertarismo é uma opinião universal, de todos os oprimidos ou revoltados contra a opressão, e que desejam destruí-la e não substituí-la, e que não acreditam gere a liberdade outra coisa senão liberdade, e não creem seja a opressão a mãe da liberdade.”

Examinemos este ponto: pode a liberdade gerar a opressão? Não!, respondem os libertários.

Por quê? Por uma razão muito simples: a liberdade é liberdade, e onde há liberdade, não pode haver opressão. Se a opressão se instala, onde há liberdade, é porque ela sobrevêm de forças, que não são libertárias, mas opressivas.

Imaginemos uma sociedade humana, livre, libertária, isto é, onde não se instituiu a autoridade política, a autoridade investida pela força. Como nasceria a opressão? Só poderia nascer se alguém resolvesse não manter a liberdade e, para tanto, tivesse força para atentar contra ela. Por si, a liberdade não é geradora da opressão, mas só esta pode gerar o seu semelhante. E como, agora, conceber-se que ela gere a liberdade? Só esta pode gerar a si mesma.

Estamos aqui, por enquanto, num terreno apenas de conceitos, mas a análise da História nos provará que a opressão só gera opressão; e a liberdade, liberdade.

Mas, voltando ao tema do início: o socialismo libertário nasceu nas lutas dos escravos, que não quiseram ser, escravos, que anelavam ser homens livres e não pretendiam escravizar outros.

No decorrer do tempo, segundo as condições históricas, tomou os diversos aspectos que conhecemos, através das doutrinas libertárias e anárquicas.

Mas, concluir daí que o libertarismo não tenha quaisquer fundamentos na Filosofia e na Ciência, é uma palmar ignorância dos fatos. E como argumento final, os libertários acrescentam:

O socialismo libertário, impregnado de sua indignação moral, de sua revolta contra a opressão, nasceu como movimento espontâneo de anseio de justiça, mas o desenvolvimento da cultura humana, permitiu que a contribuição de todas as ciências viesse corroborar aquilo que foi produto de um desejo de liberdade. Com o socialismo libertário a prática precedeu, em tudo, à teoria. Essa só posteriormente podia ser construída e, cada dia que passa, cada uma das novas conquistas do conhecimento só tem servido para corroborar as suas teses.

* * *

Sem nos colocarmos na posição dos socialistas democráticos, — que por sua vez desejam alcançar ao capitalista único, o estado, por meios eleitoralistas, no campo político, e por nacionalizações e encampações estatais (a multiplicação de autarquias), no campo econômico, — temos que dizer que o anarquismo merece a sua crítica. Na época atual, os raros e dispersos grupos anarquistas têm os olhos voltados para o século XIX, e veem a atualidade com os esquemas daquele século. Para eles, ainda apenas estamos na paleotécnica, e dela não saímos nem sairemos. Não procurando buscar o verdadeiro conteúdo de suas ideias, permanecem no conteúdo histórico do século dezenove. Por isso, muitas das suas palavras soam ocas aos ouvidos dos homens de hoje. Ademais, é preciso reconhecer que o aspecto utópico, que se revela no anarquismo, não é um defeito dessa posição, que é mais uma atitude revolucionária que uma filosofia ou uma doutrina. O utópico é o que lhe dá um calor e uma vida, que o tornam permanente e perdurável, e sob esse aspecto, pode dizer-se que o anarquismo é, em seu conteúdo, um invariante na História, e não um mero acidente histórico, como muitos pensam.

O não compreender que o utópico é um ideal, uma meta de perfeição a guiar e a exigir sempre mais dos homens, enquanto a realidade atualizada deve ser vista como tal, leva a muitos anarquistas (façamos uma exceção a Malatesta, a Proudhon, a Fabbri, pelo menos) a julgarem que a utopia possa deixar de ser o que é — um ideal inalcançável a desafiar o homem eternamente para que conheça superações — e possa tornar-se numa imediata realidade.

Por outro lado, é preciso reconhecer que os anarquistas são, no movimento socialista, os mais seguros e coerentes, pois abominam todo e qualquer oportunismo e, pelo caráter acentuadamente ético de sua doutrina, são de uma rara nobreza e dignidade que os toma admiráveis. Faremos, no entanto, uma anotação, que seria para muitos dispensáveis: não se deve julgar o anarquismo pela caricatura. Na verdade, os socialistas de outras escolas pouco ou nada sabem de anarquismo. E ainda acrescentaremos que o terrorismo empregado em algumas ocasiões, é mais uma excrescência do movimento, pois em suas linhas e atitudes, o anarquismo é contra o emprego da violência. Se alguns de seus seguidores a usaram, em certos momentos, deve-se mais ao desespero que propriamente a uma decorrência lógica dos postulados fundamentais.

Em suma, o socialismo está em crise, imerso na crise do mundo moderno.

 

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